quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Benfica: Jesus Acerta o Passo

Jesus Acerta o Passo


A Primeira Época - Chegou o Messias

Jorge Jesus prometeu, quando chegou ao Sport Lisboa e Benfica, “pôr o Benfica a jogar o dobro” da época anterior. E cumpriu. O Benfica da primeira época apresentou um futebol ofegante, em ritmo desenfreado, sempre ao ataque. As goleadas sucessivas comprovam a eficácia do seu método. Jesus é exigente ao nível táctico mas também ao nível técnico gritando constantemente nos treinos e nos jogos para dentro do campo. Quem joga no corredor junto ao banco de suplentes do Benfica sai sempre com as orelhas a arder. Este futebol de vertigem ofensiva era possibilitado essencialmente por dois jogadores, Di Maria e Ramires que, embora com estilos distintos, esticavam o jogo pelas faixas. Di Maria de forma mais técnica e com arranques explosivos e Ramires com a sua passada de corredor de meio-fundo. No ataque, Cardozo, Saviola e Nuno Gomes contribuíam com golos vitais. Javi Garcia, criticado por muitos pelos 7 milhões de euros que custou, era o farol defensivo, a pedra basilar de toda a equipa. Na defesa, Luisão, Maxi Pereira e David Luiz e o adaptado Fábio Coentrão eram garante de alguma estabilidade. Apesar disso, com o pendor ofensivo da equipa muitas transições defensivas mal feitas resultaram em golos sofridos desnecessariamente. A inexperiência de Jesus em clubes de topo, que lutam por todas as provas, quase colocou em risco a conquista do campeonato pois o plantel não tinha assim tantas soluções alternativas. A equipa claudicou nos quartos-de-final da Liga Europa em Liverpool chegando ao fim do encontro “de gatas”. O Campeonato, esse só foi ganho com muito sofrimento na última jornada a um Braga fenomenal.

A Segunda Época - Má Planificação, Má Época

Com o final da primeira época, chegou o Campeonato do Mundo de 2010. Vários jogadores do Benfica foram chamados às suas selecções - Ruben Amorim, Maxi Pereira, Luisão, Ramires, Fábio Coentrão, só para citar alguns - e Maxi Pereira foi mesmo o jogador mais utilizado do Mundial. Logicamente, estes jogadores tiveram um período de férias mais alargado mas que nem por isso serve para recuperar o desgaste de uma época inteira com mais de 60 jogos nas pernas. Jesus queixou-se várias vezes durante a pré-época que não dispunha de alternativas válidas para substituir os internacionais. A juntar a essas condicionantes, Di Maria e Ramires deixaram o clube recheado de Euros mas mais pobre em talento. Chegou Gaitan para o lugar de Di Maria e Salvio chegou em Janeiro para tentar fazer esquecer Ramires. Chegou também Roberto Jimenéz, jovem guarda-redes contratado por uma verba astronómica - 7,5 milhões de Euros - e que nunca conseguiu aguentar o peso da sua “etiqueta”. Entretanto David Luiz já dava mostras de querer sair e em Janeiro saiu mesmo para o Chelsea. O início de campeonato foi desastroso com 3 derrotas nos 4 primeiros jogos, mas a vertigem do ataque mantinha-se na cabeça de Jorge Jesus. Queria sempre “nota artística” máxima aos seus jogadores e não conseguiu perceber que alguns deles não eram suficientemente bons para aquilo que pretendia. A ajudar à festa, o Porto de Villas-Boas dominou a todos os níveis - nacional e internacional. Apesar da campanha desastrosa na Liga dos Campeões, o Benfica conseguiu ser repescado para a Liga Europa onde caiu nas meias-finais aos pés de um Sporting de Braga mais fresco e com mais soluções. Mais uma vez os jogadores chegaram “de gatas” ao final da época. Maxi Pereira acabou a época e foi para a Copa América que acabou por vencer - segundo ano consecutivo sem férias.

A Terceira Época - Jesus Começa a Aprender Com os Erros

Nova época, novas ambições. Chegam jogadores de qualidade para colmatar lacunas no plantel. Artur Moraes, Witsel e Rodrigo são as notas de maior destaque pela positiva. Fábio Coentrão deixa o Benfica depenado da asa esquerda. Para o seu lugar chegou Emerson que mais valia não ter vindo. Não acrescentou nada de novo ao plantel do Benfica. Com as novas aquisições o Benfica voltou a ter uma palavra a dizer no campeonato. A equipa ficou mais equilibrada especialmente devido a Witsel, jogador muito forte nas transições ofensivas e que fazia chegar a bola à frente com ela no pé. Aimar, o mago, esteve em grande forma nesta época e era o complemento perfeito para Witsel. Javi Garcia, continuava imperial como âncora da defesa. Nas alas, Nolito e Bruno César vieram dar mais amplitude ao plantel e acrescentaram bastante qualidade, especialmente o espanhol que no início da época espantou tudo e todos com os seus golos e assistências. Na frente de ataque, Rodrigo explodiu e foi mais uma das revelações da época. O Benfica chegou à fase decisiva da época com cinco pontos de vantagem sobre o Porto e chegou aos quartos-de-final da Liga dos Campeões. A vertigem do ataque foi refreada, muito por causa de Witsel que pautava os tempos de jogo no meio-campo e a quem era muito difícil tirar a bola. Depois, entregava a bola a Aimar ou Gaitan e estes encarregavam-se de dar-lhe o melhor destino. O belga aparecia também muitas vezes em zona de finalização. Era um Ramires mais refinado, mais apurado tecnicamente mas com menos capacidade de explosão para o ataque e de ajuda a Maxi Pereira. A época perdeu-se, mais uma vez, devido à má gestão do esforço por parte de Jorge Jesus. Apesar de não praticar um futebol tão rápido, o estilo de jogo do Benfica era muito desgastante para os próprios jogadores porque Jesus não era muito adepto da rotatividade no plantel. A factura acabou por pagar-se com Jesus a acreditar que podia chegar longe na Liga dos Campeões e gerir o esforço dos seus jogadores para manterem os cinco pontos de distância para o Porto. Com um plantel curto e com falta de soluções em posições debilitadas, o resultado foi outra vez o mesmo. Campeonato perdido para um Porto de qualidade duvidosa.

A Quarta Época - Até Agora Tudo Bem Feito

Com o final da terceira época, chegou um Campeonato da Europa. Nunca fiquei tão feliz por o Benfica não ter nenhum titular indiscutível nas selecções que foram à Polónia e à Ucrânia. Isso significou uma pré-época bem preparada, com quase todos os jogadores no início dos trabalhos. Infelizmente, um clube de topo na Liga Portuguesa, precisa de vender para poder competir com os melhores da Europa. Nos últimos dias do mercado, um vendaval arrasou o meio-campo do Benfica. De uma assentada, Witsel e Javi Garcia, criaram um enorme vazio no centro nevrálgico da equipa. Jesus, conhecedor profundo dos seus jogadores não pareceu preocupado. Eu, confesso, também não. 
Matic, para mim, é melhor jogador que Javi Garcia. Tem um raio de acção muito maior, é mais cerebral nas suas acções, tranquiliza mais a equipa nas transições defensivas. O sérvio, “cola” melhor nos centrais quando é preciso defender os cruzamentos para a área do Benfica. Além disso, também dobra melhor os laterais. O espanhol com a sua impetuosidade, cometia muitas vezes faltas desnecessárias. Não quer dizer que Matic não veja tantos amarelos como Javi. Essa é uma fatalidade inerente à posição que ocupa em campo. Matic é mais criterioso nas faltas que comete e nas zonas onde as comete. Como bónus, a capacidade de passe de Matic é infinitamente superior à de Javi tanto no passe curto como no longo. Isto permite ao Benfica esticar o seu jogo de uma forma diferente. A bola é que se cansa e não os jogadores. Para as alas, chegaram extremos puros, Salvio - um regresso e Ola John, uma novidade. Ambos são incisivos nos seus movimentos. Pegam na bola e viram-se para a baliza adversária. Driblam ou combinam com os avançados e médios interiores e vão embora para a linha. Cruzam com critério para um dos dois avançados que esta época Jesus utiliza: Cardozo, Lima ou Rodrigo. Esta é outras das novidades do sistema de Jesus. Dois avançados puros com um deles a jogar ao redor do outro que fica mais fixo. A ausência prolongada de Aimar e de Carlos Martins ajuda a explicar esta opção. Não havendo no plantel outros jogadores que consigam transportar a bola até à área e fazer passes de morte, Jesus optou por jogar com um avançado que desce no terreno para jogar entre linhas.
 Para fazer dupla com Matic, Enzo Pérez. O argentino foi mais um milagre de Jesus: extremo convertido em médio de transição, quando está apto é ele que pauta todo o jogo do Benfica. Infelizmente para Jesus, tem as características físicas de um extremo. E os seus joelhos não serão os mais fiáveis. No entanto, compensa essas debilidades com uma entrega extraordinária. Nas ausências destes dois jogadores, dois meninos, dois André: um, André Almeida, polivalente, pode actuar a lateral-direito, médio de cobertura, médio direito ou médio de transição. Pessoalmente, prefiro vê-lo jogar na posição de Matic; outro, André Gomes, joga preferencialmente na posição de Enzo Perez. Arrepio-me ao vê-lo jogar pelas parecenças com Rui Costa. Autêntica placa giratória do meio-campo, faz a bola rodar como poucos. A bola nos seus pés nunca está triste. Passa com ambos os pés com igual precisão. Pauta ritmos de jogo, distribui e marca golos. Já me esquecia, só tem 19 anos. Com os regressos de Aimar, Carlos Martins e Enzo Perez, não deve ficar desmotivado se tiver que voltar a jogar na equipa B. Ainda tem muito para aprender. Deve recordar-se que Rui Costa também esteve emprestado ao Fafe.
No lado esquerdo da defesa, mais um coelho tirado da cartola mágica de Jesus. Melgarejo, jovem extremo paraguaio convertido em lateral esquerdo. À imagem de Coentrão, é um lateral sempre em rotação. Não é pelo seu lado que o Benfica tem sofrido golos. É precisamente na faixa contrária que reside actualmente o maior problema do Benfica.
Maxi Pereira não está a perder qualidades mas está cansado. Há quatro épocas que é a única alternativa válida para a posição de lateral-direito. Só quando está castigado ou lesionado é que não joga. Entre três dessas épocas não teve oportunidade de descansar em condições pois participou até ao fim no Campeonato do Mundo de 2010 e venceu a Copa América em 2011. As suas capacidades ofensivas mantêm-se intactas pois muito do seu jogo ofensivo é feito em tabelas mas quando tem que recuperar na transição defensiva é que se notam as maiores carências. Fica muitas vezes um buraco do lado direito que tem que ser coberto por Luisão ou Jardel.  Maxi Pereira também defende cada vez mais dentro em relação à linha quase junto ao central do seu lado para se proteger da incapacidade de acompanhar o extremo adversário até à linha de fundo. Isto cria autênticos corredores para penetração dos adversários. Por falar em Luisão  é curioso, ou talvez não, que sem três das suas referências defensivas da época anterior o Benfica só tenha perdido por duas vezes e ambas para a Liga dos Campeões. Isto também é um reflexo de maior equilíbrio da equipa. O futebol do Benfica é agora mais paciente, tenta contornar os seus adversários e sabe esperar pela oportunidade certa. Tudo isto feito em velocidade é muito desgastante tanto para a equipa como para os adversários. A ver vamos se lá mais para o fim da época Jesus não cede aos seus impulsos ofensivos.
Para concluir, este projecto de quatro anos está agora a entrar na fase de cruzeiro. Como Jesus refere muitas vezes a equipa tem uma ideia de jogo muito própria. Essa identidade da equipa, não é uma coisa que se construa de um dia para o outro, é um processo moroso, exigente e que requer muito esforço e concentração por parte de todos os intervenientes. E requer, sobretudo, continuidade. Jesus pode não ser o melhor treinador do mundo, mas é o treinador ideal para a conjuntura actual do clube. Com o passar dos anos tem sabido modificar comportamentos e atitudes tanto pessoais como da equipa. A uma escala totalmente diferente, recorde-se que Alex Ferguson só ganhou o seu primeiro título de campeão na sétima época à frente do Manchester United.

1 comentário:

Daniel Faria disse...

Jesus quer a dobradinha - Campeonato e Taça de Portugal. O treinador encarnado assumiu este desejo aquando do jogo com o Desportivo das Aves. O sonho comanda a vida do Homem e quem o impede de tal aspiração? Assim, o Benfica é a única equipa portuguesa que poderá atingir esse feito, que foge há cerca de 26 anos - época 1986/87!

Jorge Jesus, como havia redigido, é um dos principais mentores do sucesso encarnado. Futebol espetáculo, aliado a um pragmatismo que consigna os campeões, como constatámos na segunda parte diante do Braga, são ingredientes deleitosos que exultam nesta ementa genuína e mui sui generis de JJ. Este permanece em estado de graça, utilizando apenas um médio defensivo - trinco - com dois alas muito velozes, quer Salvio, quer Gaitán ou Ola John e dois avançados de categoria refinada. A propósito de Ola John, li algures que Nolito é mais jogador, para um tal iluminado, que o holandês. Não costumo julgar ninguém, mas tamanho disparate dá que pensar! Urreta poderá ser uma agradável surpresa e será, do meu ponto de vista, um concorrente de Salvio, embora o argentino seja titularíssimo.

O Benfica ficou privado de Bruno César e Nolito. Como colmatar as suas saídas? Não prevejo que nos dois dias que restam para o encerramento do Mercado, chegue mais alguém. Todavia, há um jogador que me enche as medidas - Miguel Rosa. Não acha, mister, que este merecerá uma chamada à equipa principal? Vitor será mesmo reforço?

Prestes a entrar na face crucial da época, não percebi a saída de Nolito, ao invés da de Bruno César. Jesus sabe, certamente, com que fio está a cozer a sua matriz futebolística e que tem quatro competições para ganhar, embora depreenda que a manta não estica. Mesmo assim, as saídas de Javi Garcia e Witsel foram colmatadas com perícia pelo técnico e, aquelas vozes agoirentas do ínicio de época, baixaram de tom e foram-se atenuando, gradualmente, à medida que as vitórias foram surgindo.

JJ consegue como poucos motivar os jogadores e extrair dos mesmos o sumo que deseja para formar uma equipa competitiva e ganhadora. Lima, aos 29 anos, tornou-se melhor jogador, letal como o verdadeiro Cowboy Americano e é uma das revelações do nosso campeonato - a melhor contratação do defeso; Matic tornou-se melhor jogador que Javi Garcia, para espanto de todos, incluindo eu; Melgarejo evoluiu bastante e é uma adaptação de sucesso; Enzo Perez enche o meio-campo e não sendo um 10 puro, faz esquecer Witsel; André Gomes, André Almeida, Salvio, Garay, Urreta, entre outros, sentiram o toque majestoso do técnico português. Que acham de Gaitan no miolo do terreno? Que delícia, que nobre pé esquerdo!

Este reconhecimento é merecido, sr. quatro milhões!

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